Um pouco sobre nós…

Situada no Vale de Baixo, esta família dedica-se à olaria desde 1982. No entanto, a ligação ao ofício vem de muito antes. O Sr. Álvaro, nascido em 1945, aprendeu o ofício com o seu bisavô. Desde criança, envolveu-se na arte de moldar o barro — ajudava a amassar, preparava os pelões (massa destinada às formas) e colaborava com o oleiro na roda.
Apesar de ter passado dez anos em Lisboa a trabalhar como motorista, regressou à terra para se dedicar a tempo inteiro à olaria. Foi ele quem construiu o forno, as instalações e os barracões que ainda hoje sustentam a produção.
Há já vários anos que 99% da produção da olaria é destinada à exportação. Apesar disso, continuam a produzir peças tradicionais como alguidares, tachos, louça de água, cântaros, canecas, jarros de vinho, almotolias, panelas da velha, púcaras (como a escoteira, usada para fazer café), potes, vasos e ânforas de azeite — peças feitas à mão, em milhares.
Nos primeiros tempos, o Sr. Álvaro vendia em feiras, mercados e lojas, incluindo as populares “lojas dos trezentos” nos anos 90. Conta que foi Luís Santo o seu grande inspirador, encorajando-o a ser original para destacar-se no mercado. Daí nasceu um estilo próprio, com misturas de cores pouco vistas por cá, como os tons de azul.
No final dos anos 80, surgiu a oportunidade de exportar para a Bélgica. No entanto, com a chegada do comércio asiático, especialmente as chamadas “lojas dos chineses”, em meados dos anos 90, as encomendas sofreram uma quebra significativa. Depois de um período difícil, conseguiram estabilizar com uma clientela fiel, recebendo encomendas da Suíça, Alemanha, Inglaterra, França e EUA.
Se noutros tempos chegaram a ter 15 trabalhadores, atualmente a olaria é mantida por quatro pessoas, incluindo os dois filhos do Sr. Álvaro. Alcino, o mais novo oleiro da Bajouca, e Aldina, que apesar de não moldar barro, inspeciona cuidadosamente cada peça que sai do forno — é, como a família gosta de dizer, responsável pelo Controlo de Qualidade.
Entre os projetos mais marcantes, destaca-se a residência artística com a Escola António Arroio, organizada pela ABAD (Associação Bajouquense para o Desenvolvimento). Dez estudantes do curso profissional de cerâmica colaboraram com a olaria na criação de um painel em protesto contra o uso de gás natural. Apesar dos atrasos provocados pela pandemia, o painel foi inaugurado em maio de 2021 e está exposto na Biblioteca Afonso Lopes Vieira, em Leiria.
As recordações mais duras estão ligadas aos invernos difíceis, quando era um desafio arranjar lenha suficiente para alimentar os fornos. Chegou-se a queimar tábuas, caruma e carrascas, ou a pedir 5 litros de petróleo ao Ti Manel Esquim. O fogo tinha de crescer lentamente e, durante a noite, ficavam a vigiar o forno, rezando o terço, pedindo a proteção da Nossa Senhora e cantando cantigas antigas. O pai do Sr. Álvaro tocava realejo, numa tentativa de animar as longas vigílias. Dormia-se mal, com receio de que algo corresse mal — a cruz estava sempre presente, símbolo de fé e esperança para que a fornada fosse bem-sucedida.
Naquela altura, algumas figuras humildes conhecidas por “caturras” circulavam pelas olarias. Em troca de aguardente, retiravam a louça ainda quente do forno com as mãos envoltas em panos. Por vezes, para arrefecer as peças mais pequenas, lançava-se água com cuidado, pois o choque térmico podia fazer estalar ou rachar a cerâmica. As peças maiores eram deixadas a arrefecer naturalmente.

A primeira feira do Sr. Álvaro foi em Caxarias — uma viagem que demorava um dia inteiro. Pelo caminho, alguns compradores revendiam as peças nas feiras locais. Em regiões como Pombal, Paião, Louriçal ou Leiria, os gostos variavam: uns preferiam a louça vermelha, outros os cântaros ou as saladeiras. Nos mercados de Monte Redondo, Ponte da Pedra e Memória, vendiam-se tendedeiras, tachos, alguidares, jarros, biões e panelas para tripas e azeite. Curiosamente, as peças partidas eram muitas vezes as primeiras a ser vendidas — serviam para transportar mercadorias, numa época em que ainda não havia sacos de plástico.
O Sr. Álvaro recorda os tempos em que só tinham um par de sapatos — guardado para ir à missa. Fora disso, andava-se descalço. Recorda também, com ternura, o seu único vestido em criança e as caminhadas até à escola, onde se cantava, assobiava e procuravam ninhos de passarinhos. Resume tudo com um sorriso: “Éramos felizes. Não tínhamos nada, mas tínhamos a natureza toda.”
Hoje, com quase 50 anos dedicados à olaria, o Sr. Álvaro diz: “Aqui choro, rezo, falo. O barro é como um filho, dá uma libertação à alma.” Fala com as peças, com quem passa os seus dias — porque, de facto, nunca está verdadeiramente só. O ofício que começou em família continua vivo, com as mãos e o coração moldados pela terra.